terça-feira, 30 de junho de 2009

VAI ALTA NO CÉU A LUA DA PRIMAVERA, POEMA DO HETERÔNIMO ALBERTO CAIEIRO DE FERNANDO PESSOA


VAI ALTA NO CÉU A LUA DA PRIMAVERA


Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim
uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome;
e não sou eu: sou feliz.
Amanhã virás,
andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos
ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores
comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã
e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

Fernando Pessoa como Alberto Caieiro

UM DIA, UM POEMA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER


Um dia

Um dia, gastos, voltaremos

A viver livres como os animais

E mesmo tão cansados floriremos

Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços

Dos gestos agitados irreais

E há-de voltar aos nosso membros lassos

A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar

Através do mistério que se embala

No verde dos pinhais na voz do mar

E em nós germinará a sua fala.




Foto "Movimentos de cor e luz" de Jorge Nelson Alves, Olhares.Com)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

SONETO 164 DE LUÍS DE CAMÕES, TRADUZIDO DO CASTELHANO POR RENATA CORDEIRO


Estudo para Lady Claire, John W. Waterhouse


SONETO 164

Luís de Camões (1525-1580)



Ondas que pelo mundo caminhando
Sempre ides empurradas pelo vento,
Convosco carregai meu pensamento,
Até onde está quem o está causando.



Dizei-lhe que vos vou acrescentando
Dizei-lhe que não há vivo momento,
Dizei-lhe que não morre meu tormento,
Dizei-lhe que não mais vivo esperando.



Dizei-lhe quão perdido me encontrastes,
Dizei-lhe quão chegado me partistes,
Dizei-lhe quão sem vida me matastes.



Dizei-lhe quão chagado me feristes,
Dizei-lhe quão sem mim vós me deixastes,
Dizei-lhe quão com ela vós me vistes.



TRADUÇÃO DO CASTELHANO POR RENATA CORDEIRO

domingo, 28 de junho de 2009

OLHOS VERDES, DE GONÇALVES DIAS



OLHOS VERDES
Gonçalves Dias

São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte,
Diz uma — vida, outra — morte;
Uma — loucura, outra — amor.
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
depois que os vi!

São uns olhos verdes, verdes,
Que podem também brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da cor do prado,
Mas verdes da cor do mar.
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como se lê num espelho,
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,
Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós, ó meus amigos,
Se vos perguntam por mim,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos cor de esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
uns olhos da cor do mar:
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mim!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!

A VIDA É UM MILAGRE!...- Manuel Bandeira- Autor brasileiro-

A vida é um milagre.
Cada flor, com sua formusura, seu aroma,
cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
com sua plumagem, sen canto, seu vôo,
cada pássaro é um milagre.
O espaço infinito,
o espaço é um milagre.
O tempo infinito,
o tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
TUDO É MILAGRE!...

O MELRO, UM POEMA DE MANUEL ALEGRE


O Melro





Está poisado no cedro e canta apenas


as penas e alegrias nupciais.


Amor e adeus. Encontro e despedida.


Por isso são de luto as suas penas


e o que diz está antes das vogais.


Onde o poeta falha ele não erra


só ele sabe a sílaba proibida


só ele canta o código da terra





(Livro do Português Errante)
(Foto "Forest Light" Cachapa, Olhares.Com)

sábado, 27 de junho de 2009

BÁRBORA, POEMA DE CASTRO ALVES

The Valkirie´s Vigil, Edward R. Huges

BÁRBORA

Castro Alves (1847-1871)

Erguendo o cálix, que o xerez perfuma,
loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
dentes níveos em lábios tão vermelhos,
como boiando em purpurina escuma;

um dorso de valquíria... alvo de bruma,
pequenos pés sob infantis artelhos,
olhos vivos, tão vivos como espelhos,
mas como eles também sem chama alguma;

garganta de um palor alabastrino,
que harmonias e músicas respira...
No lábio – um beijo... no beijar... um hino;

harpa eólia a esperar que o vento a fira
- Um pedaço de mármore divino...
- É o retrato de Bárbora – a Hetaíra.

IRONIA DO MAR, POEMA DE GILKA MACHADO


IRONIA DO MAR

Gilka Machado



Soa um grito de dor... e o detono de uma onda,
Como uma salva, atroa e repercute, pelos
Longes do ar... De onde veio a voz o ouvido sonda
E, em vão, busco escutar do náufrago os apelos.

E o truculento Mar sinistramente estronda,
Ruge, regouga, rola, espuma, em rodopelos,
E, talvez, porque, agora, almo tesouro esconda,
Cada vez mais feroz se arrepia de zelos.

Para a presa reter, muralhas de esmeralda
Ergue, e, num riso atroz de realizado gozo,
Veste-a de rendas mil, de flores a ingrinalda;

Move a cabeça informe, as longas cãs balança,
E, alçando a larga mão, num gesto vitorioso,
Mostra, cinicamente, um cadáver de criança.

UM POEMA DE MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA


Não é ainda a pele, apenas

um rumor na lã das camisolas, um recado

a lembrar tardes no feno, linho lavado, o sol

mordendo um rio pela manhã -

assim a distância entre a minha mão e o pessegueiro.



Na estrada

as flores demoram-se até às laranjas,

mas o aroma do pomar faz sede e os olhos cegam

na promessa de gomos novos e doces, os mais doces. Talvez



por isso se continue a viagem sem olhar para trás.



Livro "A Casa e o Cheiro dos Livros"
(Foto "JV_09_017" João Viegas, Olhares.Com)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

SER MÃE, POEMA DE HENRIQUE MAXIMINIANO COELHO NETO

Mother, Mary Cassat

HENRIQUE MAXIMINIANO COELHO NETO (1864-1934)

SER MÃE


Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
O coração! Ser mãe é ter no alheio
Lábio, que suga o pedestal do seio,
Onde a vida onde o amor cantando vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra,
Sobre um berço dormindo! é ser anseio,
É ser temeridade, é ser receio,
É ser força que os males equilibra!

Todo o bem que mãe goza é bem do filho,
Espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

PROCURO ALGUÉM!... Poema de Cecilia de Morales dos Santos...




Ando pelo mundo procurando encontar alguém.

Alguém que me complete que me ame de verdade.

Alguém que me estenda a mão, que ande comigo

pelos caminhos que eu trilhar.

Alguém que me cure as minhas feridas,

que cultive a esperança comigo.

Alguém que faça os meus dias serem

menos tristes.

Que faça com que as minhas noites não sejam

só uma aveludada escuridão.

Quero paz para poder dormir e sonhar, quero

acordar sobre os lençois amarfanhados,

sabendo que tenho alguém a meu lado.

Alguém que me sorri e me diga "Bom-Dia"

Alguém que me faça arquitectar novos planos,

novos anseios.

Quero alguém que me faça esquecer o meu

passado solitário...

De As PASSAGENS SECRETAS (Fragmentos), UM POEMA DE AMADEU BAPTISTA


De As Passagens Secretas

(fragmentos)

Corremos pela praia com a nossa nudez porque deixamos
algures os mantimentos escassos
de que a nossa tristeza se mantém.

Corremos pela praia e as mãos deslizam
para um cobertor lavado pelo mar,
o oiro magnífico, a distância
mais curta entre dois pontos. É de noite,

e corremos porque o tacto é uma promessa,
casam-se os búzios, conchas
azuis habitam o olhar, barcos,

homens que bebem a água como se fosse terra,
pequeninas sementes,
dissimulam a sede a que deus nos condena.

(Foto "S/T" Hugo Amador, Olhares.Com)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

HARMONIA VELHA, POEMA DE GUILHERME DE ALMEIDA

Romeu e Julieta, Auguste Rodin

HARMONIA VELHA
Guilherme de Almeida

O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas
O fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!
E o tato mais vibrante,
O sabor mais sutil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem...
Se uma emoção estranha o gosto de uma fruta,
A luz de um poente chega a mim,
Não sei de onde, e bruscamente ganha qualquer
Sentido meu, é a ti somente que ouço,
Ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo...
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar...

S/T, UM POEMA DE JOSÉ LUIS PEIXOTO


o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida.
era o teu rosto.
era a tua pele.
antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

(Foto "O ultimo pôr do sol de um dia" Óscar Silva, Olhares)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

DUAS ALMAS, POEMA DE ALCEU WAMOSY

Two Souls, Jaimie Cahlil

DUAS ALMAS
Alceu Wamosy (1895-1923)

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

VIMOS DE LONGE, DE MUITO LONGE, UM POEMA DE NILSON BARCELLI


Vimos de longe, de muito longe,

Vimos de longe, de muito longe,
com as mentes perfumadas
por dilúvios caros que sorvemos,
com o hálito na pele invadida
por fragrâncias
de maresias que soprámos
em rotas de ventos risonhos.

Vimos de longe, de muito longe,
a bordo de uma nau
com a linha de água submersa
pela carga dos contentores
da fortuna estivada nos porões,
tesouro que carregámos
com as retinas cheias de nós.

Vimos de longe, de muito longe,
com limo e ostras na rabada,
atravessámos um mar convulso
de vozes e algas sem norte
na quilha da nossa firmeza,
à vela do farol dos sentidos
lastrados na paz do olhar.

Vamos p'ra longe, p'ra muito longe,
a navegar no fado que nós cremos,
dobraremos os cabos inesperados
das tormentas de nós mesmos.

(Cedido por Nilson Barcelli, blog Nimbypolis)
(Foto "..."Mineiro, Olhares.Com)

terça-feira, 23 de junho de 2009

É MORNO O PÔR-DO-SOL, POEMA DE FERNANDO PESSOA

Golden Sunset, Leonid Afremov

FERNANDO PESSOA (1888-1935)

É MORNO O POR DO SOL... (1)

Vosso sonho fechou as janelas, florido,
Deixa a minha alma dar às noites seus gemidos (?)

É morno o por dosol no cerne dos queixumes,
Qual jato de água curvo ao vento, é todo ocioso,
Em mim, o entardecer, fingido e vagaroso,
Brota, descendo sobre os reflexos negrumes.

Aos poucos, tua voz ocupa as sonolências,
Ignotos lapsos entre os átomos da hora,
E sem sabermos de onde alguém, baixinho, chora,
Os ramos em torpor ruminam só demências.

Qual caixa de marfim se fecha todo ser,
Qual folha morta cai enfim todo momento,
Logo não terei mais regato onde beber
O vinho que me faz voar em pensamento.

E, bruscamente, o sopro amornecido deixa
Mossas de sonho sobre as esperas do instante.
Nós choraremos dentro em breve. E as minhas queixas,
Quais som que morre no ar, estão agonizantes.

Como sempre, tardou, irmã, tardou demais.
Pois o vento me ergueu o trigo entre as quimeras
Senti meu coração pulsante e lasso de ais.
Minguou a arte da queixa, à minha breve espera.

Sem calçados, pisais, com rara lucidez,
No porto. Sorri: é o epíteto que, exato,
Deus vos encontrará ao corpo em acidez,
No paço consagrado ao nosso desbarato.

Lembro-me. Junto ao rio escuro e negro, à margem.
Com os cisnes buscando olhares doutras gentes.
Nós agíamos como apóstolos plangentes
Que perderam a fé nas vesperais miragens.

Estáveis totalmente à sombra. E aquele lasso
Órgão chorava atrás do quadro interrompido.
Nós, à sombra em que Deus ficou emudecido,
Face a face, e o rumor da fuga de alguns passos


Rumo à morte, e na sombra, a perder-se no espaço.

(1) Fernando pessoa escreveu este poema em francês poucos dias antes de morrer.


Tradução de Renata Cordeiro

Golden Sunset, Leonid Afremov

PLANO, UM POEMA DE NUNO JÚDICE


Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

(Imagem cedida pela Renata)

MÃE ÁFRICA

Mãe África!
Mãe forte da floresta e do deserto.
A dos coqueiros
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...
A do sol bom, mordendo
o chão das ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas
longas e floridas.
Minha terra! Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando
mansamente... mansamente




segunda-feira, 22 de junho de 2009

FOI AQUI NESTE LUGAR..., POEMA DE ESTER CORDEIRO


FOI AQUI NESTE LUGAR...

Ester Cordeiro

Foi aqui, neste lugar...

Foi aqui, oh! se me lembro!
Numa noite de dezembro...
Há tantos anos passados,
Que tomaram minhas faces
Engelhadas como alfaces,
Meus cabelos prateados.

Foi aqui, juntinho ao mar...

Eu, ao seu peito encostada,
Sentia-me amparada
Contra o que via e não via;
Que viesse a tempestade,
Dos homens tôda a maldade,
Que eu jamais as temeria!

Numa noite de luar...

E, aos raios frios da Lua,
Se juntara a minha à sua
Bôca, num beijo ardente,
De sabor tão delicado...
Mas, nem sombra de pecado.
(Meu amor puro e inocente!)

Foi aqui, neste lugar...

Foi aqui, eu não me esqueço...
Nem as horas, que aborreço,
(E passaram tão lentamente...)
Jamais tiveram poder
De, aquêle doce prazer,
Expungir da minha mente.

Foi aqui, juntinho ao mar...

Tudo era solidão...
Só ouvia o coração
No peito do meu gigante;
Em posição tão querida,
Ficaria eu tôda a vida,
No meu amor confiante.

Numa noite de luar...

E a lua feiticeira,
Estendendo a cabeleira,
Debuxava o seu perfil;
E o gesto do meu Bem,
Mais belo que o de ninguém,
Nem Adônis, mais gentil!...

Foi aqui, oh! se me lembro!

As palavras, uma a uma,
Tudo o que me disse, em suma,
Sem esquecê-lo, repito;
Todo dia, em oração,
No altar do coração,


Como flores deposito!

MEU PAR, UM POEMA DE MARIA DO CARMO LIMA BOMFIM


Meu Par



O papel em branco
que a tantos aterroriza
que a mim não dá medo;
é meu companheiro
nas andanças do dia-a-dia
Carrego-o para todos os lugares
e se alguma idéia me surge de surpresa
ou me toma por inteiro
recorro a ele
- meu testemunho, calado
de tudo o que penso desejo
E não falo




Maria do Carmo de Lima Bomfim (Carmo Bomfim)
(II Antologia de Poetas Lusófonos)
(Foto "Linhas" Paulo Medeiros, Olhares)

A FORÇA DE CRETCHEU, MORNA DE EUGÊNIO TAVARES

Dançando a Morna


A FORÇA DE CRETCHEU

Eugênio Tavares

Ca tem nada na es bida

Mas grande que amor

Se Deus ca tem medida

Amor inda é maior.

Maior que mar, que céu

Mas, entre tudo cretcheu

De meu inda é maior

Cretcheu más sabe,

É quel que é di meu

Ele é que é tchabe

Que abrim nha céu.

Cretcheu más sabe

É quel qui crem

Ai sim perdel Morte dja bem

Ó força de chetcheu,

Que abrim nha asa em flôr

Dixam bá alcança céu Pa'n bá odja

Nôs Senhor Pa'n bá pedil semente

De amor cuma ês di meu

Pa'n bem dá tudo djente

Pa tudo bá conché céu


LOUCURA, POEMA DE DANIEL COSTA

Rage of depression, Mark Sharer

LOUCURA
Daniel Costa

Dizem que sou louco
DizemQue me importo
Convivo feliz com a loucura
Amo o mundoAmo a ternura
Esse manto de brandura
Afastando sofreguidão
Não…Não vivo num universo
De ilusão
Sei que muitos choram
Porque não têm pão
Encolhem ombros, que mansidão!
Será hipertensão?
Doçura, remédio na escassez!
Deixem-me ser louco
Digam-me que os grandes
Se preocupam um pouco
Apelo à humanidade
Enquanto justiça do alto espero
Esperar humildade e candura
Dos grandes que apenas almejam
Fazer figura
Fazer da justiça bravura
Bendita loucura
A denunciar um mundo de loucos
Fingindo que pensam
Muitas promessas
Para muito arrecadar
Depois muito a poucos dar
Oh loucura!
Olhai a robustez
A dos loucos de vez

domingo, 21 de junho de 2009

OUTRA VOZ, POEMA DE MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA


Outra Voz



Ela não pediu esse silêncio. Mas também nada fez

para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,

a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele

tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava

que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera,

nas arcas de lãs que só voltaria a abrir no inverno.



Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas

que não voltaria a ouvir a voz dele

no espelho do seu quarto - a outra voz.



Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.

Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer

algo mais do que o silêncio - essa outra voz.



(Livro " A Casa e o Cheiro dos Livros")
(Foto "Suave" Daniel Guimarães Silva, Olhares)

sábado, 20 de junho de 2009

LÁGRIMAS OCULTAS, POEMA DE FLORBELA ESPANCA


LÁGRIMAS OCULTAS
Florbela Espanca

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

ROSAS VERMELHAS



ROSAS VERMELHAS
Karla Bardanza

Deito-me em tua pele,
Procurando pelo teu corpo
As palavras que guardam
Todos os meus desejos
E luar...
E bem aqui tão dentro
De mim, cheiro de mar,
Dedos de paixão,
Águas cristalinas
Te afundando no colchão.
Bocas que se acham e se perdem,
Sussurros soletrando todas as letras
Do nosso prazer, cavernas
Para decifrar, línguas que já
Não podem mais falar.
E somos todas as delícias
Impressas nos lençóis
E nas paredes...
E somos
A sede enigmática do que
Alimenta os nossos olhos.
Seguro teus cabelos
Para não cair e toda vez
Que caio, perco um pedaço
Nos teus braços...
Subimos pelas estrelas,
Morremos em silêncio depois
Que atravessamos a densa
Floresta em doce escuridão
E quando acordamos, temos
Rosas vermelhas mais uma vez
Tatuadas nas mãos.

O AMOR QUE SINTO, POEMA DE JOSÉ GOMES FERREIRA

O amor que sinto

O amor que sinto

é um labirinto.

Nele me perdi

com o coração

cheio de ter fome

do mundo e de ti

(sabes o teu nome),

sombra necessária

de um Sol que não vejo,

onde cabe o pária,

a Revolução

e a Reforma Agrária

sonho do Alentejo.

Só assim me pinto

neste Amor que sinto.

Amor que me fere,

chame-se mulher,

onda de veludo,

pátria mal-amada,

chame-se "amar nada"

chame-se "amar tudo".

E porque não minto

sou um labirinto.

José Gomes Ferreira

(Foto "Nothing as it seems" Raul Alexandre, Olhares.Com)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

NOITE, DO POETA ANGOLANO AGOSTINHO NETO


NOITE
Agostinho Neto


Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.
Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.
São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.
Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.
Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.
Também a noite é escura.
(Sagrada esperança)
***

NOTA BIOGRÁFICA

Nascido em Catete, Angola, em 1922, Agostinho Neto faleceu em 1979. Fez seus estudos primários e secundários em Angola. Licenciou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa. Sempre esteve ligado à atividade política em Portugal, onde fundou a revista Momento com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque em 1950. Como outros escritores africanos, foi preso e desterrado para Cabo Verde.
Poeta da hora revolucionária, combatente da luta anticolonial, primeiro presidente da República Popular de Angola, sua obra, ultrapassando os limites da história literária, confunde-se com a própria história recente do país. Condicionada pelas dificuldades do momento em que foi escrita, tanto a construção, quanto a publicação desta obra se dão de forma esparsa e irregular... ("Agostinho Neto: o lugar da poesia em tempo de luta" de Dalva Maria Calvão Verani in África & Brasil: Letras em laços. Org. de Maria do Carmo Sepúlveda e Maria Teresa Salgado. RJ: Ed. Atlântica, 2000)
Sua obra poética pode ser encontrada em quatro livros principais, que ainda não têm edições brasileiras: Quatro Poemas de Agostinho Neto (1957), Poemas (1961), Sagrada Esperança (de 1974 que inclui os poemas dos dois primeiros livros) e a obra póstuma A Renúncia Impossível (1982). A poesia de Agostinho Neto é uma poesia engajada que apresenta as imagens poéticas das vivências do homem angolano. Mas ele não fala só do passado e do presente, mas também da busca, da preparação do futuro.

www.sitedeliteratura.cjb.net

quarta-feira, 17 de junho de 2009

SONETO DO AMIGO, DE VINICIUS DE MORAES


SONETO DO AMIGO
Vinicius de Moraes

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular amigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica....

A HORA DA PARTIDA, POEMA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN


A HORA DE PARTIDA


A hora de partida soa

quando escureceu o jardim e o vento passa,

Estala o chão e as portas

batem, quando a noite

cada nó em si deslaça.

A hora de partida soa

quando

as árvores parecem inspiradas

como se tudo nelas germinasse

Soa quando no fundo dos espelhos

me é estranha e longínqua

a minha face.

E de mim se desprende a

minha vida.

(Foto "Encontro Perfeito" Francisco Mendes, Olhares.Com)