sexta-feira, 31 de julho de 2009

DISTÂNCIA ... - (Maria Emilia Venda) - Poetisa Portuguesa

Há certas horas do dia
que gosto de me evadir
que gosto de ficar só
ficar no meio do silêncio
ficar ouvindo o silêncio
para sentir meu sentir.
Em certas horas do dia
preciso de ficar só
p"ra comigo me encontrar
consultar a consciência
preparar o coração
para meu Deus escutar.
Em certas horas do dia
o silêncio é precioso
convida à meditação
vejo então com clareza
como é grande a distância
entre mim e a perfeição.
Na quietude dos sentidos
em que a paz desce à minha alma
prometo só fazer bem
mas por muito que me esforce
vejo a Terra Prometida
ficar sempre mais ALÉM...




SONETO DE RENATO DA CUNHA (1869-1901)

Passeio sob neve,  J. J. J. Tissot(1836-1902)

SONETO
Renato da Cunha (1869-1901)

A noite era profunda. A neve borrifava
com pontas de punhais as pedras das calçadas.
Nos páramos do céu a luz deslizava
formosa auribordando as nuvens descoradas.

O vento minuano, um vento penetrante,
fazia tremular os lampiões sombrios;
deitados pelo solo em bando agonizante
uivavam tristemente uns doze cães vadios.

As lindas cortesãs, envoltas em arminhos,
nos fofos dos coupés, como rolas em seus ninhos,
saíam dos bordéis cansadas das vigílias.

E nas mesas do jogo os velhos crapulosos
davam ao baccara, febrentos, sequiosos,
os últimos ceitis roubados às famílias.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

PRESENÇA, UM POEMA DE MÁRIO QUINTANA


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


(Foto "Ponte" de Miguel Afonso, Olhares)

terça-feira, 28 de julho de 2009

O PODER DAS LÁGRIMAS, SONETO DE LUIZ BARRETO MURAT (1861-1929)


O PODER DAS LÁGRIMAS
Luiz Barreto Murat (1861-1929)



Com que saudade para o céu não olhas,
Vendo de nuvens todo o céu coberto,
E engastadas de pérolas as folhas
E o coração das árvores deserto.

Como uma grande rosa, a alma desfolhas
Dentro do seio, inteiramente aberto,
E esses restos de flor passando molhas
N´água do arroio que coleia perto!

Molha-as, sim, nesta linfa algente e casta!
Que uma só gota cristalina basta
Para o calor em chuva ir transformando.

Hás de ficar com olhos rasos d´água,
A dor há de acalmar que a própria mágoa
Tem dó de ver uma mulher chorando.

QUERO UM DIA... (Mário Quintana)

"Quero um dia
poder dizer às pessoas
que nada foi em vão
que o amor existe,
que vale a pena se
doar às amizades
ê às pessoas.
Que a vida é bela sim
e que eu sempre te dei
o melhor de mim
e que valeu a pena!!!"



APOCALIPSE, UM POEMA DE FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO


Apocalipse

Quando passa o tempo, as coisas
retornam aos elementos. E as cria-
turas. Para a transformação
final. Mas nem o fim
permanece. O cardume dos lagos
que morre embranquecido
por fim é de água. Os boquilobos
multicolores na beira das áleas
caem na terra e são terra.

Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Ecos"


(Foto de Nuno Milheiro, Olhares.Com " Luz na Noite"

segunda-feira, 27 de julho de 2009

VIOLÕES QUE CHORAM, POEMA DE CRUZ E SOUZA



VIOLÕES QUE CHORAM
Cruz e Souza

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
noites de solidão, noites remotas
que nos azuis das Fantasias bordo,
vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações à luz da lua
anseio dos momentos mais saudosos,
quando lá choram na deserta rua
as cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
quando os sons dos violões nas cordas gemem,
e vão dilacerando e deliciando,
rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
dedos nervosos e ágeis que percorrem
cordas e um mundo de dolências geram,
gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas mágoas,
mágoas amargas e melancolias,
no sussurro monótono das águas,
noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,
volúpias dos violões, vozes veladas,
vagam nos velhos vórtices velozes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Edvard Grieg: Dança da Anitra, de Peer Gynt, um poema de Amadeu Baptista


Estou perdido entre uma sombra

e uma amendoeira,

mas estar perdido não significa

não conhecer a beleza do que passa

no instante em que passas

ou estar mais próximo da desolação

neste vestígio antiquíssimo da desolação.

A sombra de que falo

vem de um lugar onde o coração

está próximo,

de um lugar onde a inocência pulsa ainda

sob a terra,

de um lugar onde os lábios pronunciam

a subtileza de um nome

com o teu nome.

Porque tu és essa ave

que o vento reconhece e agita

o coração,

a árvore branca e poderosa

a que os pássaros regressam,

a árvore que cintila na escuridão

e pelo subtil estremecimento da noite é o último refúgio

de quem se encontra perdido

entre a sombra de uma amendoeira

com o teu nome,

algures no mundo,

neste vestígio antiquíssimo da desolação.

(Livro "O Bosque Cintilante)

(Foto "Caminhando sobre a Luz" Fernando Dias, Olhares.Com)

domingo, 26 de julho de 2009

PARA SER...- Ricardo Reis-

"Para ser grande sê inteiro"
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes,
assim em cada lago a
lua toda brilha porque
ALTA VIVE...

(Ricardo Reis)



sábado, 25 de julho de 2009

O SOL, UM POEMA DE JOÃO COSTA FERREIRA



Sol,

Fonte de calor,

Fonte de vida,

Inspiração do amor.

Sol,

Que traz calor neste dia de Dezembro,

Traz recordações daquilo que já mal me lembro-

Este sol,

Aquece o meu amor por ti,

Lembra-me as palavras que me disseste

E nunca mais esqueci.


(Livro "II Antologia de Poetas Lusófonos)

(Foto "T" Carlos L, Olhares,Com)

A DOR DA SOLIDÃO... - António Manoel Abreu Sardenberg - Poeta Brasileiro-

Não existe dor maior
Que a dor da solidão
É dor cruel e perversa
E nem mesmo explicação
É a carência de carinho
Seu sintoma é a paixão.
E essa dor tão doida
Que tanto maltrata a gente
Chega assim tão de repente
Sem sequer bater à porta
Para ela pouco importa
Se está matando o doente
Se a "Inês é quase morta"
É uma dor que aniquila
Que castiga, que maltrata
É mais forte que tequilha
Mais ardente que cachaça
É pior que a dor que tomba
Mais cruel que a dor que mata.




quinta-feira, 23 de julho de 2009

SONETO DO AMOR DIFÍCIL, UM POEMA DE DAVID MOURÃO FERREIRA


Soneto do amor difícil
 
A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...
 
Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.
 
Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.
 
E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.
 (Foto "The day of the storm) de Nuno Milheiro

MULHERES QUIOCAS, POEMA DE DANIEL COSTA



MULHERES QUIOCAS

Interessantes as mulheres quiocas
Estão na Província angolana da Lunda
Bonitas, como poucas
Vivem na fronteira com o Zaire
Zona diamantífera de histórias loucas
Usual e habitual a poligamia
Labutam no campo, como poucas
Quando perdem o cabaço
Com o homem amado, ficam taralhoucas
Pintam de branco o seu corpo
Fica belo e alvo enquanto tisnado
Como quem diz olhem: já pertenço a alguém
O rico como polígamo
Estima-se pelas mulheres que tem no harém
Na margem do rio Luachimo
É feito o casamento
Por negociações,
Designa-se alambamento
Aconteceu um dia
Como gado não havia naquele momento
Reunira-se os anciões
Para se efectivar um casamento
Funcionariam muitos tostões
Foi apenas uma observação
Não passava disso, de início de serões
Conferenciavam na sua língua
Teciam: a miúda é bonita
Ainda tem cabaço
Vale, um homem de bens
Valorizavam, faltava apenas o laço
Genarié?
A menina ainda tem cabaço!
Mata… ai ué!

Em quioco:
Cabaço = virgindade
Genarié? = Como se chama?
Mata = senhor
Ai ué = ai Jesus

Daniel Costa

quarta-feira, 22 de julho de 2009

SAUDADES- (Janinha Mel)

Saudades, saudades
de Você
Quem em meu peito
se abrigou.
Saudades da
tua palavra
saudades do que
não tive
Mas que.
Consigo convive!!!
Saudades, ai
saudades da
tua presença
Saudades,
do que em meu
Coração ficou
SAUDADES, SAUDADES...




terça-feira, 21 de julho de 2009

POEMA AO INFANTE D. HENRIQUE, POEMA DE VIEIRA CALADO

Praça Infante Dom Henrique em Lagos

POEMA AO INFANTE D. HENRIQUE

Vieira Calado

Na curva inolvidável da Baía,

que ao mar bravio roubou o Bojador,

paira a sombra fantástica vigia

desse Infante que foi Navegador.


Pega a bússola, a régua, a fantasia,

arrasa velhos mitos sem terror

e em Lagos e em Sagres, dia a dia

faz argonauta o sábio e o pescador.


Desencobre dos mares os segredos

e no abismo dos mitos derradeiros

desfaz em clara luz p´rigos e medos.


E tu, Lagos, berço dos marinheiros,

és a própria figura do Infante,

que ao Mundo mundos deu, mais adiante.


http://vieiracalado-poesia.blogspot.com


segunda-feira, 20 de julho de 2009

SONETO DE JOSÉ DA NATIVIDADE SALDANHA (1796-1830)

Pedro e Inês, por De Matos Ferreira
Acrílico sobre tela



SONETO

José da Natividade Saldanha (1796-1830)

À sombra deste cedro venerando
Momentos mil gozaste encantadores...
Aqui mesmo sentado entre os verdores
Te achou mil vezes Pedro suspirando...

Parece-me que estou ‘inda escutando
Teus suspiros, teus ais e teus clamores...
Parece-me que a fonte dos Amores
Inda está de queixosa murmurando!...

Aqui viveu Ignez!... E reclinada
À borda d´esta fonte clara e pura,
Foi, que horrível memória! traspassada!

Mortais, gemei de mágoa e de ternura;
Nesta rara beleza, não manchada,
Foi culpa amor, foi crime a formosura....




DESESPERO, UM POEMA DE ARY DOS SANTOS


Não eram meus os olhos que te olharam

Nem este corpo exausto que despi

Nem os lábios sedentos que poisaram

No mais secreto do que existe em ti.



Não eram meus os dedos que tocaram

Tua falsa beleza, em que não vi

Mais que os vícios que um dia me geraram

E me perseguem desde que nasci.



Não fui eu que te quis. E não sou eu

Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,

Possesso desta raiva que me deu



A grande solidão que de ti espero.

A voz com que te chamo é o desencanto

E o espermen que te dou, o desespero.

(Foto "On Line" de Luis Augusto Jungmann, Olhares)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

DESEJOS - António Manoel Abreu sardenberg-

Este desejo que me invade a alma
e enlouquece um coração aflito
Já foi um dia bálsamo que acalma,
um aconchego meigo e tão bonito.
Esta angústia que me faz sentir
um sentimento que deixou ferida.
Já foi ternura quando da chegada!.
Já foi tristeza quando da partida...
Que este encontro que nasceu tão breve,
Possa pra sempre a vida predurar
que nunca exista então a despedida.
E que minha alma possa então amar
Lindos momentos quando da chegada
E esquecer todas as partidas...


quinta-feira, 16 de julho de 2009

ANA, POEMA DE DANIEL COSTA

ANA
Nome pequeno
Mulher alta e bela
Olhar sereno
Mulher do Cruzeiro do Sul
Não tem cabelos loiros
Onde o mar é ameno e azul
Terá netos como tesoiros
Serenos mares e praias desse sul
Onde Ana veraneia
Lindos olhos de azul
Perfil de sereia
Rosto de serenidade
Atitude que enleia
Diriam assim marinheiros antigos
Da cantada sereia
A imagem jeito fazia
Ao poeta da odisseia
Dava verso a profecia
Todas as Anas fossem assim
Serenas se desejava e queria

POEMA DE DANIEL COSTA



AMOSTRA SEM VALOR, UM POEMA DE ANTÓNIO GEDEÃO


Amostra sem valor



Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.

Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:

com ele se entretém

e se julga intangível.



Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,

sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,

que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,

não pesa num total que tende para infinito..



Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida

ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,

nesta insignificância, gratuita e desvalida,

Universo sou eu, com nebulosas e tudo.



(Foto de Honey, Olhares.Com)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

SONETO LÍRICO, DE GREGÓRIO DE MATOS GUERRA


SONETO LÍRICO
Gregório de Matos Guerra (1623-1696)


Quem viu mal como o meu, sem meio ativo?
Pois no que me sustenta e me maltrata,
É fero quando a Morte me dilata,
Quando a Vida me tira é compassivo!

Oh! do meu padecer alto motivo!
Mas oh! do meu martírio pena ingrata!
Uma vez inconstante, pois me mata;
Muitas vezes cruel, pois me tem vivo!

Já não há, não, remédios, confianças;
Que a Morte a destruir não tem alentos,
Quando a Vida em penar não tem mudanças:

E quer meu mal, dobrando os tormentos,
Que esteja morto para as esperanças,
E que ande vivo para os sentimentos.

AMOR... - Ana Briz- Poetisa portuguesa


O desejo impudor do teu olhar
percorre o meu corpo, em abandono,
meus seios túmidos no salivar
dos teus lábios, refrescam o meu sono.
Sinto ainda a dormência do teu braço
por sobre o meu, no tempo esmaecido,
e, por dentro de mim, no mesmo abraço,
o teu amor cansado, adormecido.
que espero, não sei, neste instante nosso.
Só sei que separar-me eu já não posso
sem quebar-lhe a beleza tão fugaz.
Quando acordares amor, olha para mim,
Repetiremos tudo até ao fim
Pois só assim o amor não se desfaz.