domingo, 31 de janeiro de 2010

ALGUÉM ME DISSE...



ALGUÉM ME DISSE...

Carla Bruni

Disseram-me que as nossas vidas não são grande coisa,



Que passam num instante, assim como murcham as rosas.



Disseram-me que o tempo é devastador



Que as nossas tristezas são aparentes



No entanto alguém me disse...



Que tu ainda me amavas.



Alguém que me disse que ainda me amavas.



Será possível?



Disseram-me que o destino se diverte conosco



Que não nos dá nada e que nos promete tudo



Que a felicidade está ao nosso alcance,



Então há o aperto de mãos e se dá o encontro



No entanto alguém me disse...



Mas quem me disse que ainda me amavas?



Já não me recordo, era tarde da noite,



Ainda lhe ouço a voz, mas eu não vejo o rosto



"ele te ama, é segredo, não lhe diga que eu te disse"



Vês alguém dizendo a mim...



Que ainda me amavas, dissestes isso realmente...



Que ainda me amavas, será possível?



Trad. pela Renata Cordeiro




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CANÇÃO AMIGA




CANÇÃO AMIGA



Carlos D. de Andrade


Eu preparo uma canção


em que minha mãe se reconheça


todas as mães se reconheçam,


e que fale como dois olhos.


Caminho por uma rua


Que passa por muitos países.


Se não me vêem, eu vejo


E saúdo velhos amigos.


Eu distribuo um segredo


Como quem ama ou sorri.


No jeito mais natural


Dois carinhos se procuram.


Minha vida, nossas vidas formam um só diamante.


Aprendi novas palavras


E tornei outras mais belas.


Eu preparo uma canção


que faça acordar os homens


e adormecer as crianças.


Mulheres




sábado, 30 de janeiro de 2010

SER POETA + PULP FICTION





SER POETA



Florbela Espanca




Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens!

Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!



É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!



É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…

É condensar o mundo num só grito!



E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma e sangue e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!






sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

POEMA




POEMA



Cazuza/Frejat



Eu hoje tive um pesadelo



E levantei atento, a tempo



Eu acordei com medo



E procurei no escuro



Alguém com o seu carinho



E lembrei de um tempo



Porque o passado me traz uma lembrança



Do tempo que eu era ainda criança



E o medo era motivo de choro



Desculpa pra um abraço ou consolo



Hoje eu acordei com medo



Mas não chorei, nem reclamei abrigo



Do escuro, eu via o infinito



Sem presente, passado ou futuro



Senti um abraço forte, já não era medo



Era uma coisa sua que ficou em mim



E que não tem fim



De repente, a gente vê que perdeu



Ou está perdendo alguma coisa



Morna e ingênua que vai ficando no caminho



Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado



Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás









O MEU OLHAR É NÍTIDO COMO UM GIRASSOL



O MEU OLHAR É NÍTIDO COMO UM GIRASSOL



Fernando Pessoa/Alberto Caeiro



O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...




Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...




O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...




Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso

Porque quem ama nunca sabe o que ama


Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar...







quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

TODOS FALAM DE MIM





TODOS FALAM DE MIM


Neil






Todos falam de mim



Não consigo ouvir palavra do que dizem



Apenas os ecos da minha mente



Há gente parada a olhar



Não consigo ver-lhes o rosto



Somente as sombras dos seus olhos



Vou para onde o sol sempre brilha



Pela chuva torrencial



Para onde o tempo se adapte às minhas roupas



Recuando do vento Nordeste



Navegando na brisa estival



E saltando por sobre o oceano como uma pedra



Todos falam de mim



Não consigo ouvir palavra do que dizem



Apenas os ecos da minha mente



Vou impedir que você deixe o meu amor para trás!



Não! Eu não vou deixar você sair!



Não!



Não!



Vou impedir que você deixe o meu amor para trás!



Trad. pela Renata Cordeiro