terça-feira, 28 de dezembro de 2010

QUADRAS AO GOSTO POPULAR


QUADRAS AO GOSTO POPULAR
Fernando Pessoa


A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.

*

No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem estar.

*

Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena.

*

Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.

*

Aquela senhora velha
Que fala com tão bom modo
Parece ser uma abelha
Que nos diz: "Não incomodo".

*

Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.

*

Quando vieste da festa,
Vinhas cansada e contente.
A minha pergunta é esta:
Foi da festa ou foi da gente?

*

Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.

*

Deixaste cair a liga
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada.

*

Não há verdade na vida
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.

*

Tem um decote pequeno,
Um ar modesto e tranqüilo;
Mas vá-se lá descobrir
Coisa pior do que aquilo!

*

Aquela loura de preto
Com uma flor branca no peito,
É o retrato completo
De como alguém é perfeito.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

NATAL À BEIRA-RIO



NATAL À BEIRA-RIO

David Mourão-Ferreira


É o braço do abeto a bater na vidraça?

E o ponteiro pequeno a caminho da meta!

Cala-te, vento velho!

É o Natal que passa,

A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

Tão novos os meus Pais estão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

Que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!

Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.

E quanto mais na terra a terra me envolvia

E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me

À beira desse cais onde Jesus nascia...

Serei dos que afinal, errando em terra firme,

Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?





FELIZ NATAL A TODOS NÓS




domingo, 5 de dezembro de 2010

PODE O CÉU SER TÃO LONGE




PODE O CÉU SER TÃO LONGE


Pedro Abrunhosa


Vesti a luz do teu nome
E chamei-te pela noite

Entraste no meu sono
Como o luar entra na fonte

Trazes histórias e proezas
Dizes que tens tanto para me dar

Deixas sombras incertezas
E partes sem nunca me levar

E de repente, um mar sozinho
Ninguém na margem
Ninguém no caminho
Tão frio...

E o teu beijo mata-me a distância
Ninguém tão perto pode o que o beijo alcança
E o meu corpo chora quando o teu vai embora

Porque o teu mundo é tão longe
Tão longe
Pode o céu ser tão longe
Tão longe
Se a tua voz vibra em mim

Há um deserto que fica
Sou um capitão sem barco

E quando vens pela bruma
Acendem-se as estrelas no quarto

E dizes: trago a luz das sereias
Trago o canto da tempestade

E como o vento na areia
Deitas-te em mim feita metade

E de repente um mar sozinho
Ninguém na margem
Ninguém no caminho
De tão frio...

E o teu beijo mata-me a distância
Ninguém tão perto pode o que o beijo alcança
E o meu corpo chora quando o teu vai embora...

Porque o teu mundo é tão longe
Tão longe
Pode o céu ser tão longe
Tão longe
Se a tua voz vive em mim