segunda-feira, 31 de março de 2014

MINHAS MÃOS, POEMA DE PAULA TAITELBAUM

Cinderela, de Denise Worisch

MINHAS MÃOS, POEMA DE PAULA TAITELBAUM

Minhas mãos estão atadas
Como nós de embarcação
Minhas mãos estão vazias
Com quem perde a ilusão
Minhas mãos estão trêmulas
Como uma voz de emoção
Minhas mãos estão frias
Como meu coração.



sábado, 29 de março de 2014

ANJO, POEMA DE MACHADO DE CARLOS

Foto de Luise Borghesi
Poema de Machado de Carlos


quinta-feira, 27 de março de 2014

HÁ UMA ROSA LINDA, JARDS MACALÉ SOBRE UM POEMA DE B. BRECHT


HÁ UMA ROSA LINDA, JARDS MACALÉ SOBRE UM POEMA DE B. BRECHT

Há uma rosa linda
No meio do meu jardim
Dessa rosa cuida eu
De manhã desabrochou
À tarde foi escolhida
Pra de noite ser levada
De presente a minha amiga

Feliz de quem possui
Uma rosa em seu jardim
A minha amiga com certeza
Pensa agora só em mim
Quando sopra o vento frio
E o inverno gela o jardim
Eu tenho calor em casa
E fico quietinho assim

Feliz de quem tem o seu teto
Pra ajudar a sua amiga
A fugir do vento ruim
Que deixa gelado o jardim

terça-feira, 25 de março de 2014

SONETO I, DE JORGE DE SENA




SONETO I, DE JORGE DE SENA

Anos sem fim, à luz do mar aceso,
te vi nudez quase total, tão grácil
figura juvenil, ambígua e fácil,
e ao longe às vezes totalmente nua

em um só relance de malícia crua.
Tudo isso me atraía e me afastava,
embora a vista, retornando escrava,
a teus lugares me tivesse preso.

E quase sempre então tua figura,
sentada estátua, ou falsa sesta impura,
lá era ao sol o tempo congelado.

Hoje, subitamente, tu não viste
ninguém senão o meu olhar quebrado,
e com lenta inocência te despiste.

Mas quantas rugas no rosto ansiado.

SETE SONETOS DA VISÃO PERPÉTUA



domingo, 23 de março de 2014

SONETO, DE RAUL DE LEONI

 

SONETO, DE RAUL DE LEONI


No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube porque foi... um dia
Ela me olhou indiferentemente;
Perguntei-lhe porque era... Não sabia...

Desde então, transformou-se, de repente,
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para a frente.

Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer alguma cousa
Mas que é tarde demais para dizê-la.
 

sexta-feira, 21 de março de 2014

ODOR DI FEMINA, POEMA DE ANTÓNIO CRESPO

 

ODOR DI FEMINA, POEMA DE ANTÓNIO CRESPO


Era austero e sisudo; não havia
Frade mais exemplar nesse convento;
No seu cavado rosto macilento
Um poema de lágrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria
Folheava o triste um livro pardacento,
Viram-no desmaiar, cair do assento,
Convulso e torvo sobre a lájea fria.

De que morrera o venerando frade?
Em vão busco as origens da verdade,
Ninguém m´a disse, explique-a quem puder.

Consta que um bibliófilo comprara
O livro estranho e que, ao abri-lo, achara
Uns dourados cabelos de mulher...

quarta-feira, 19 de março de 2014

A SINA DE ISOLDA E DE SEU AMADO TRISTÃO

 


A SINA DE ISOLDA E DE SEU AMADO TRISTÃO

A água é profunda e atormentada
gritos de amor lhe explodem na cabeça
e na mais forte tempestade ela só teme o tempo exilado.
Não ousa crer no destino fatal,
o amanhã pode ser clemente...
Ela sofreu tanto, tanto
separada do amante tão brioso.
Eles se amavam tanto,
eles se amavam demais
enfrentaram os deuses do céu
sua felicidade foi de fel...
Maldita seja a tempestade que a fez ficar no mar
o grito que lhe geme na cabeça só tem um nome:
Tristão...
Aquele que ela chora a todo instante.
Um homem grita “TERRA”
o coração desesperado a vela branca a espera...
Gostaria de pode voar,
estar o mais perto possível do amado,
correndo na praia, já sem fôlego,
ignorando o olhar de ódio da “outra”...
Inclina-se para aquele a quem ama...
Que todo lampejo de razão se quebre dentro dela
seu amante foi para outro horizonte
sobre os lábios pálidos e gelados de Tristão
pousa o último batimento do seu coração.
Deitando-se ao lado dele,
não podendo devolver-lhe a vida
segue-o na morte,
enlaçando-o o mais próximo do seu corpo...
Com a respiração já mortificada,
num suspiro murmura
“Adeus, Vida, quero fugir de ti”
o coração lhe falha, sua alma alça voo
“Tristão... Tristão...”, suas últimas palavras...

Renata Cordeiro

segunda-feira, 17 de março de 2014

AVENTURANÇA, POEMA DE MIGUEL TORGA




AVENTURANÇA, POEMA DE MIGUEL TORGA

Ver o mundo de baixo, como um céu
Onde se há-de subir;
Onde a vida nasceu
E onde tem, afinal, de se cumprir.

Erguer os olhos à divina altura
De uma leira de terra semeada;
À imensidão da lua
Onde cresce a ninhada.

Ver astros, tempestades, mitos,
Onde há luas, quimeras, ambições, desejos;
Onde há gritos
E beijos.

sábado, 15 de março de 2014

BELA, POEMA DE SEVERIANO CARDOSO




BELA, POEMA DE SEVERIANO CARDOSO

O teu olhar imita o diamante,
Tuas faces são pétalas de Maio;
Cobre-te o sol com um xale cintilante,
Te encoifa a lua em lânguido desmaio.

Quisera um trono para dar-te em paga
De inspiração que acorda o teu olhar,
Por onde eu vejo se escoando a vaga
De um êxtase que pode me matar.

A vida inteira, oh! bela, o mar espraia
Algas e pérolas, conchas e corais...
Tua beleza, também nunca desmaia,

Tem a luz crepitante dos cristais!
Estrela do Oriente, contemplai-a,
E vede se mais bela existe, mais!

quinta-feira, 13 de março de 2014

SE ALGUÉM, POEMA DE FERNANDO PESSOA





SE ALGUÉM, POEMA DE FERNANDO PESSOA
                                     
Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
                Que o meu vaidoso orgulho não comporta
                               Bater sequer à porta irreal do céu. 
                                                  Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

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terça-feira, 11 de março de 2014

HARMONIA VELHA, POEMA DE GUILHERME DE ALMEIDA




 
HARMONIA VELHA, POEMA DE GUILHERME DE ALMEIDA

O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas
O fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!
E o tato mais vibrante,
O sabor mais sutil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem...
Se uma emoção estranha o gosto de uma fruta,
A luz de um poente chega a mim,
Não sei de onde, e bruscamente ganha qualquer
Sentido meu, é a ti somente que ouço,
Ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo...
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar...



domingo, 9 de março de 2014

CANÇÃO DO MAR



CANÇÃO DO MAR

Fui bailar no meu batel
Além do mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo

Vem saber se o mar terá razão
Vem cá ver bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe diga aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo



sábado, 8 de março de 2014

TRISTÃO E ISOLDA, POEMA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN



TRISTÃO E ISOLDA, POEMA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Sobre o mar de Setembro velado de bruma
O sol velado desce
Impregnando de oiro a espuma
Onde a mais vasta aventura floresce.

Tristão e Isolda que eu sempre vi passar
Num fundo de horizontes marítimos
Trespassados como o mar
Pela fatalidade fantástica dos ritmos
Caminham na agonia desta tarde
Onde uma ânsia irmã da sua arde.
 
 

sexta-feira, 7 de março de 2014

MINHA PRESENÇA DE MULHER



MINHA PRESENÇA DE MULHER

Minha presença de mulher,
Eufemismo de prazer*
Divina criação, tua metade
Em tua alma sempre verdade*
Teu olhar fixo sente
Eflúvios do meu corpo ardente *
Às vezes, tão frágil, menina,
Eu te desoriento, felina
Presságio justificado,
Sexto sentido à tua pele ligado
Sentimentos extasiantes
Doçura das palavras “eu te amo”
Para que vivas vibrante*

rc


quarta-feira, 5 de março de 2014

O CONSTANTE DIÁLOGO, POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



O CONSTANTE DIÁLOGO, POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Há tantos diálogos 
Diálogo com o ser amado
                   o semelhante
                   o diferente
                   o indiferente
                   o oposto
                   o adversário
                   o surdo-mudo
                   o possesso
                   o irracional
                   o vegetal
                   o mineral
                   o inominado

Diálogo consigo mesmo
            com a noite
            os astros
            os mortos
            as ideias
            o sonho
            o passado
            o mais que futuro

Escolhe teu diálogo 
                           e
tua melhor palavra
                           ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

terça-feira, 4 de março de 2014

AMOR ABRAÇADINHO, POEMA DE DANIEL COSTA




AMOR ABRAÇADINHO, POEMA DE DANIEL COSTA

Podíamos dizer: o amor é bonitinho
Não devemos olhar o mundo como um traço
Porém o amor poderia ser abraçadinho
Devemos abarcar o mundo num abraço
Podemos imaginar um passarito no seu ninho
Metaforicamente, podemos ter coração de aço
Assim sonhava direitinho
O meu anjo me levou a ver a grandeza do espaço
Amor abraçadinho
Sonhava, alado, voava sem embaraço
Chegava à outra galáxia de mansinho
Voando como um poetaço
Já os dois fiéis corcéis, devagarinho
Transportavam-me, algo já via, um gesto de abraço
Gesto, talvez, de amor abraçadinho
O meu peito primeiro foi estreitar um, depois o outro braço
A garota não será o que se poderá chamar traço
Eu, poeta, aprecio mais o amor maneirinho
Era na praia, que se deu o amor sem cansaço
Frente à imensidão do mar, o meu caminho
Depois, o anjo já evoluía na vastidão do espaço
Eu a levitar, acordava com o amor abraçadinho
Acariciava aquele regaço
Por toda a vida continuou o amor abraçadinho

http://danielmilagredanieldaniel.blogspot.com.br

domingo, 2 de março de 2014

DESABAFO, POEMA DE CLARICE LISPECTOR

DESABAFO, POEMA DE CLARICE LISPECTOR

Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram...  Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me deem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das ideias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:

- E daí? EU ADORO VOAR!