segunda-feira, 30 de junho de 2014

ÚLTIMO FANTASMA, SONETO DE CASTRO ALVES


ÚLTIMO FANTASMA, SONETO DE CASTRO ALVES


Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso!...

Onde nos vimos nós?... És doutra esfera?
És o ser que eu busquei do sul ao norte...
Por quem meu peito em sonhos desespera?...

Quem és tu? Quem és tu? – És minha sorte!
És talvez o ideal que est´alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!...

quinta-feira, 26 de junho de 2014

BELEZA SONHADA, POEMA DE CECÍLIA MEIRELES



BELEZA SONHADA, POEMA DE CECÍLIA MEIRELES


Se a Beleza sonhada é maior que a vivente, dizei-me:

Não quereis ou não sabeis ser sonho?

Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.


Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas

vão as medidas que separam os abraços.

Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

Agora és livre, se ainda recordas...

terça-feira, 24 de junho de 2014

NO DIA DE TEUS ANOS, SONETO DE FRANCISCO A. DE CARVALHO LIMA JR.



NO DIA DE TEUS ANOS, SONETO DE FRANCISCO A. DE CARVALHO LIMA JR.

No dia venturoso de teus anos
Ainda no verdor da idade em flor,
Mais aumenta por ti minha ternura,
Mais me sinto por ti morrer de amor.

Neste dia festivo e desejado,
Queimando-me o calor de tua mão,
Quisera, junto a ti, ó minha amada,
Que visses palpitar-me o coração.

Quisera, ó sim! Porém só quer o fado
Que eu viva neste mundo amargurado
Sem poder sempre estar ao lado teu.

Embora! mesmo assim, enquanto vivo,
Do teu sublime amor sempre cativo,
Serei, ó minha amada, o teu Dirceu.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

MAL SECRETO, POEMA DE RAIMUNDO CORRÊA



MAL SECRETO, POEMA DE RAIMUNDO CORRÊA

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N´alma e destrói cada ilusão que nasce;
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente talvez que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez, existe
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

terça-feira, 17 de junho de 2014

TRISTE FILOSOFIA, SONETO DE MAXIMIANO DE LAET


TRISTE FILOSOFIA, SONETO DE MAXIMIANO DE LAET


Ia a Rosa vestir-se, e do vestido

Uma voz se desprende e assim murmura:

“Muitas morremos de uma morte escura,

Por que te envolva serico tecido!”


Ia toucar-se, e escuta-se um gemido

Do marfim que as madeixas lhe segura:

“Por dar-te o afeite desta minha alvura,

Jaz na selva meu corpo sucumbido!”


Põe um colar, e a pérola mais fina:

“Para pescar-me quantos párias, quantos!

Padeceram no mar lúgubres sortes!”


E Rosa chora: “Oh! desditosa sina!

Todo sorriso é feito de mil prantos,

Toda a vida se tece de mil mortes!”


sexta-feira, 13 de junho de 2014

SONETO, DE CARVALHO JÚNIOR



SONETO, DE CARVALHO JÚNIOR

Quando, pela manhã, contemplo-te abatida,
amortecido o olhar e a face descorada,
imersa em languidez profunda, indefinida,
o lábio ressequido e a pálpebra azulada,

relembro as impressões da noite consumida
na lúbrica expansão, na febre alucinada,
do gozo sensual, frenético, homicida,
como a lâmina aguda e fria de uma espada.

E ao ver em derredor o grande desalinho
das roupas pelo chão, dos móveis no caminho,
e o boudoir, enfim, do caos um fiel plágio,

suponho-me um herói da velha antiguidade,
um marinheiro audaz após a tempestade,
tendo por pedestal os restos de um naufrágio!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER, SONETO DE LUÍS DE CAMÕES



AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER, SONETO DE LUÍS DE CAMÕES


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode o seu favor
Nos mortais corações tal amizade,
Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?

sábado, 7 de junho de 2014

ENCANTAVAS-ME, IRMÃ,..., POEMA DE LÉVI IBN MAR SHAUL (Século XI)





ENCANTAVAS-ME, IRMÃ,..., POEMA DE LÉVI IBN MAR SHAUL (Século XI)


Encantavas-me, irmã, voltada, em sentinela,
A Damasco! No olhar as aguilhoadelas...
Na boca a rubra fita
[1]... E que langue era ela,
Ó minh’alma! Eu gritava: - E quem é a donzela,
Que se apruma, surgindo igual à aurora bela?
[2]

– Separei-me e parti, e sem estar pintada
Nos meus olhos azuis... Outrora, desvairada,
Eu corria, eu voava, assim que era chamada
Pelo leão; cedia a quem tinha morada
No peito, qual madeira em carvão transformada!
Eu descia ao jardim das nogueiras, alada,
[3]
Para pôr, junto ao rio, às plantas a mirada...

Se eu Te escondia a graça, estando no terraço,
Era para que não me vissem o regaço!
Nas mirtas frescas, Ele escondeu os Seus passos:
Sendo todo avidez e entregue ao Seu querer,
Se a vinha floresceu, anseia Ele por ver

E se da romãzeira os botões vão nascer![4]


NOTAS


[1] Cântico dos Cânticos, 4, 3.[2] Ibidem, 6, 10.[3] Ibidem, 6, 11.[4] Ibidem, 7, 13.


Tradução de Renata M. P. Cordeiro

quinta-feira, 5 de junho de 2014

HÁ METAFÍSICA BASTANTE EM NÃO PENSAR EM NADA, POEMA DE ALBERTO CAEIRO, HETERÔNIMO DE FERNANDO PESSOA (EXCERTO)



HÁ METAFÍSICA BASTANTE EM NÃO PENSAR EM NADA, POEMA DE ALBERTO CAEIRO, HETERÔNIMO DE FERNANDO PESSOA (EXCERTO)

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

terça-feira, 3 de junho de 2014


AO LUAR, SONETO DE BENEDITO LUÍS RODRIGUES DE ABREU









Os santos óleos, do alto, o luar derrama...
Eu, pecador, ao claro luar ungido,
Sonho: e sonhando rezo comovido
E arrebatado na divina chama.

Deus piedoso, consolo do oprimido,
Se compadece, à voz que ardente clama,
Porque meu coração, impura lama,
É um brado intenso para os céus erguido!

E o divino perdão desce da altura:
Grandes lírios alvíssimos florescem
Sob a lua, floresce a formosura...

E nessa florescência, imaculados
Raios longos do luar piedoso descem,
Choram comigo sobre os meus pecados.