sábado, 27 de setembro de 2014

CANÇÃO GRATA







CANÇÃO GRATA

Almada Negreiros, salvo engano, segundo um leitor, a quem agredeço muito*


Por tudo o que me deste

inquietação cuidado

e um pouco de ternura

é certo mas tão pouca

Noites de insónia

Pelas ruas como louca

Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce e tão breve ilusão

Embora nunca mais

Depois de que a vi desfeita

Eu volte a ser quem fui

Sem ironia aceita

A minha gratidão

Que bem que me faz agora

o mal que me fizeste

Mais forte e mais serena

E livre e descuidada

Sem ironia amor, obrigada

Obrigada por tudo o que me deste

Por aquela tão doce

e tão breve ilusão

Embora nunca mais

Depois de que a vi desfeita

Eu volte a ser quem fui

Sem ironia aceita

A minha gratidão

domingo, 21 de setembro de 2014

SEM CUIDAR QUE ESTAVA SÓ..., POEMA DE ESTER CORDEIRO





SEM CUIDAR QUE ESTAVA SÓ...


Sem cuidar que estava só,

Em mãos à obra deitei;

Dia e noite trabalhei,

— De cansada dava dó, —

E, dos pés, o sangue ao pó

Das estradas se juntava

Numa pasta ensangüentada

(Que eu dizia "é pão-de-ló");

Mais moidinha ficava

Que o trigo ao sair da mó.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

PINTAR O AMOR, POEMA DE JOSÉ A. CORREIA



PINTAR O AMOR, POEMA DE JOSÉ A. CORREIA



Na arte do amor
Na tela do amar
Pintar fantasias
Nosso ateliê particular.
Fazemos o esboço elementar
Nossos olhos na tela
Amada desenhar
O amor com cores pintar
Sentimentos em rabiscos
Tentamos demonstrar
Que amamos além da tela
Ser capaz alem do infinito
Pelas cores o amor combinar
Amor fundamental
Quadro com expressão
Tem de se amar de verdade
Alguém do fundo do coração
Retoques finais
A imagem completa
De quem amamos ficou imortalizada
Na tela de amor repleta



terça-feira, 9 de setembro de 2014

ROSA E PROSA, POEMA DE OSWALDO ANTÔNIO BEGIATO



ROSA E PROSA, POEMA DE OSWALDO ANTÔNIO BEGIATO


À flor da pele
Trago muitas flores
E seus perfumes;
Trago muitas dores
E meus ciúmes.


À flor da pele
Te amo de mansinho.
És minha rosa,
Eu sou teu espinho:
- Poesia e prosa!


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

ERA MÚSICA!, POEMA DE J. G. DE ARAÚJO JORGE



ERA MÚSICA!, POEMA DE J. G. DE ARAÚJO JORGE










E então soprou um vento de ternura intensa.


E as nuvens se dispersaram e eu vi que meu coração emergia


como um alto cume de montanha, dourado de sol,


musicado de pássaros e éguas. 





Olhava teus olhos, tuas mãos, teus cabelos, teu corpo...


Teu corpo era como um caminho sinuoso por onde saí


desesperado a procurar-te.





E, de repente, tomei-te nos braços,


afaguei-te a cintura,


recolhi-te ao meu peito.





Teu coração inquieto pulsava


mais que o córrego das montanhas


batia asas de pássaro encandeado.





E de repente saímos livres e felizes, como simples


animais de Deus


com a direção dos ventos.





Faminto, colhi-te como um fruto!


Sedento, bebi-te como a água!


Marquei meus dentes em tua carne


e escorreste pela minha boca,


pelo meu pescoço,


pelo meu peito.





Meus braços foram tuas formas. Minhas mãos te conheceram.


Desmanchei-te os cabelos, e me perdi.


Nossas bocas se uniram, e se esqueceram.





Tatearam meus lábios escalando cumes,


devassando vales.





E fiquei em ti, vivo e silencioso,


como o sangue nas veias,


como a seiva na raiz.





E desci sobre ti e me entranhei,


como a chuva descendo


e molhando.





E quando falamos: Era música!