domingo, 31 de janeiro de 2016

O FOGO E AS SALAMANDRAS, POEMA DE MÁRIO QUINTANA




O FOGO E AS SALAMANDRAS

A vida é um incêndio:
nela dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...



sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

SEUS OLHOS, POEMA DE ALMEIDA GARRETT





SEUS OLHOS


Seus olhos - que eu sei pintar
O que os meus olhos cegou -
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.


Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.




quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

RETRATO, POEMA DE MIGUEL TORGA






RETRATO


O meu perfil é duro como o perfil do mundo.

Quem adivinha nele a graça da poesia?

Pedra talhada a pico e sofrimento,

É um muro hostil à volta do pomar.

Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto

Faz um poema doce e desejado;

Mas quem passa na rua

Nem sequer sonha que do outro lado

A paisagem da vida continua.

Miguel Torga
Coimbra, 11 de Março de 1952

domingo, 17 de janeiro de 2016

CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE, DE MÁRIO QUINTANA






CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE


A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,

Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:

Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,

Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas...




segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

SE



SE

Se puderes guardar o sangue frio diante
de quem fora de si te acusar, e, no instante
em que duvidem de teu ânimo e firmeza,
tu puderes ter fé na própria fortaleza,
sem desprezar contudo a desconfiança alheia...

Se tu puderes não odiar a quem te odeia,
nem pagar com a calunia a quem te calunia,
sem que tires daí motivos de ufania,
sonhar, sem permitir que o sonho te domine,
pensar, sem que em pensar tua ambição se confine,
e esperar sempre e sempre, infatigavelmente...

Se com o mesmo sereno olhar indiferente
puderes encarar a Derrota e a Vitória,
como embustes que são da fortuna ilusória,
e estóico suportar que intrigas e mentiras
deturpem a palavra honesta que profiras...

Se puderes, ao ver em pedaços destruída
pela sorte maldosa, a obra de tua vida,
tomar de novo, a ferramenta desgastada
e sem queixumes vãos, recomeçar do nada...

e tendo loucamente arriscado e perdido
tudo quanto era teu, num só lance atrevido,
se puderes voltar à faina ingrata e dura,
sem aludir jamais à sinistra aventura...

Se tu puderes coração, músculos, nervos
reduzir da vontade à condição de servos,
que, embora exausto, lhe obedeçam ao comando...

Se, andando a par dos reis e com os grandes lidando,
puderes conservar a naturalidade,
e no meio da turba a personalidade,
impávido afrontar adulações, engodos,
opressões, merecer a confiança de todos,
sem que possa contar, todavia, contigo
incondicionalmente o teu melhor amigo...

Se de cada minuto os sessenta segundos
tu puderes tornar com teu suor fecundos...

a Terra será tua, e os bens que se não somem,
e, o que é melhor, meu filho, então serás um Homem!
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Carta ao filho, de Rudyard Kipling

Tradução de Alcantara Machado

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

BELEZA SONHADA, POEMA DE CECÍLIA MEIRELES





BELEZA SONHADA


Se a Beleza sonhada é maior que a vivente, dizei-me:



Não quereis ou não sabeis ser sonho?

Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.



Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas

vão as medidas que separam os abraços.



Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

Agora és livre, se ainda recordas...


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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

SE TU VIESSES VER-ME HOJE À TARDINHA, SONETO DE FLORBELA ESPANCA








SE TU VIESSES VER-ME HOJE À TARDINHA






Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,


A essa hora dos mágicos cansaços,


Quando a noite de manso se avizinha,


E me prendesses toda nos teus braços...




Quando me lembra: esse sabor que tinha


A tua boca... o eco dos teus passos...


O teu riso de fonte... os teus abraços...


Os teus beijos... a tua mão na minha...




Se tu viesses quando, linda e louca,


Traça as linhas dulcíssimas dum beijo


E é de seda vermelha e canta e ri




E é como um cravo ao sol a minha boca...


Quando os olhos se me cerram de desejo...


E os meus braços se estendem para ti...





domingo, 3 de janeiro de 2016

ROSA DE HIROSHIMA

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ROSA DE HIROSHIMA


Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária

A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada



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