sábado, 30 de abril de 2016

COISAS INESQUECÍVEIS, POEMA DE SIRLEY L. PASSOLONGO




COISAS INESQUECÍVEIS, POEMA DE SIRLEY L. PASSOLONGO

Tem coisas inesquecíveis
Um afago, um beijo
Um abraço apertado.

Uma palavra na hora certa
Uma rosa entreaberta
Num jardim ensolarado...

Uma criança no balanço
Rindo das idas e vindas
Como quem tocasse o céu
E fosse por ele tocada...

Tem coisas inesquecíveis...
A inocência
Da verdadeira amizade.





quinta-feira, 28 de abril de 2016

VENTANAS, POEMA DE YAYÁ



VENTANAS

São panapanás amarelas
Vindas ao quintal taturanas,
Dizendo palavras singelas
Das almas de si porcelanas

Que buscam floreiras, janelas,
Onde a colorir flores planas,
Negam-se a queimar arandelas
Em salas de estar suburbanas.

Vestem asas às paralelas,
Flanam decorando persianas;
Deixando ao chão suas mazelas,
Sobem ao destino e às ventanas.

http://arteseescritas.blogspot.com/



segunda-feira, 25 de abril de 2016

AS ROSAS DE ISPAÃ, SONETO DE CHARLES LECONTE DE LISLE




AS ROSAS DE ISPAÃ(1)



Charles Leconte De Lisle (1818-1894)



As rosas de Ispaã na bainha musgosa,

Os jasmins de Mossul (2), a flor da laranjeira

Ah, fragrância não têm suave e tão ditosa,

Ó branca Leila, como a tua aura ligeira!



Lábios corais, soando a risada ligeira

Bem melhor que a água viva, e com voz mais ditosa,

Bem melhor que o ar feliz que embala a laranjeira,

Que a ave que canta ao lar na bainha musgosa...



Mas desde que fugiu, com sua asa ligeira,

O beijo dessa boca encarnada e ditosa,

Perfume já não há na tênue laranjeira,

E nem celeste odor nas bainhas musgosas...



Que o teu jovem amor, borboleta ligeira,

Volte ao meu coração, com sua asa ditosa,

E que perfume ainda a flor da laranjeira,

As rosas de Ispaã na bainha musgosa!


Trad. de Renata Cordeiro




(1) Este poema de Leconte de Lisle é uma homenagem à clássica história de amor da literatura persa, escrita por Nizami (1140-c.1203), chamada Leila e Majnun. Também Eric Clapton compôs a canção Layla em homenagem a essa história de amor.

(2) Ispaã se situa no atual Irã e Mossul no Iraque.





sábado, 23 de abril de 2016

QUATRO SÉCULOS SEM WILLIAM SHAKESPEARE, SONETO 12 + HOMENAGEM A PRINCE



SONETO 12 

Quando soa o relógio e conto cada hora,
 E vejo em noite horrenda o dia alvo afundar;
 E da flor violeta o seu Abril de outrora,
 E cachos de azeviche, argênteos a branquear;
 E sem folhas, eu vejo altíssimos ramados,
 Que eram, quando calor, os toldos da manada,
 E o verde do estio, já por sarmentos cercados,
 A ir-se no caixão, com barba alva e embotada,
 Ponho-me a perguntar pela tua beleza,
 Que a ruína do Tempo irá, sim, atingir,
Desamparadas hão de estar graças, lindeza,
 Morrendo, ao entrever os novos a florir;
 Só te defenderá da foice do grão Tempo,
 Quando vier ceifar-te aqui, o teu rebento.

Tradução de Renata Cordeiro

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HOMENAGEM A PRINCE





sexta-feira, 22 de abril de 2016

MEU UNICÓRNIO AZUL, CANÇÃO DE SILVIO RODRIGUEZ




MEU UNICÓRNIO AZUL, CANÇÃO DE SILVIO RODRIGUEZ


Meu unicórnio azul ontem se perdeu
pastando o deixei, e desapareceu
por qualquer informação bem vou pagar
as flores que deixou não me quiseram falar.

Meu unicórnio azul ontem se perdeu
não sei me deixou, se de mim se desgarrou
e eu não tenho mais que um unicórnio azul
se alguém dele souber, rogo-lhe informação
cem mil ou um milhão eu pagarei
meu unicórnio azul ontem se perdeu
se foi.

Eu e o unicórnio azul fizemos amizade
um pouco com amor, um pouco com verdade
com seu corno de anil pescava uma canção
sabê-la partilhar era sua vocação.

Meu unicórnio azul ontem se perdeu
e pode parecer até uma obsessão
mas não tenho mais que um unicórnio azul
e mesmo que tivesse dois, só quero aquele.
Qualquer informação eu a pagarei
Meu unicórnio azul ontem se perdeu
se foi.

Tradução de Renata Cordeiro




quarta-feira, 20 de abril de 2016

NINGUÉM DURMA, ÁRIA DA ÓPERA "TURANDOT" DE GIACOMO PUCCINI




NINGUÉM DURMA, ÁRIA DA ÓPERA "TURANDOT" DE GIACOMO PUCCINI



O príncipe desconhecido (Calàf)

Ninguém durma!
Ninguém durma!
Tu também, ó Princesa
Em teu quarto frio, olha as estrelas,
Que tremulam de amor e de esperança...

Mas o meu segredo permanece guardado dentro de mim
O meu nome ninguém saberá
Não, não, sobre a tua boca o direi
Quando a luz brilhar

E o meu beijo quebrará
O silêncio que te faz minha

Coro feminino

O seu nome ninguém saberá
E nós teremos, oh!, de morrer, morrer

O príncipe desconhecido (Calàf)

Parte, ó noite
Esvanecei, estrelas
Ao amanhecer, eu vencerei!
Vencerei! Vencerei!



Trad. de Renata M. P. Cordeiro




É VITALÍCIO: COMER A VIDA, POEMA DE MIA COUTO



É VITALÍCIO: COMER A VIDA, POEMA DE MIA COUTO

É vitalício: comer a Vida
deitando-a entontecida
sobre o linho do idioma.

Nesse leito transverso
dispo-a com um só verso.
Até chegar ao fim da voz.

Até ser um corpo sem foz.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

QUEM NÃO AMA NÃO VIVE, POEMA DE ANTÓNIO BOTTO




QUEM NÃO AMA NÃO VIVE, POEMA DE ANTÓNIO BOTTO 


Já na minha alma se apagam
As alegrias que eu tive;
Só quem ama tem tristezas,
Mas quem não ama não vive.

Andam pétalas e fôlhas
Bailando no ár sombrío;
E as lágrimas, dos meus olhos,
Vão correndo ao desafio.

Em tudo vejo Saudades!
A terra parece mórta.
- Ó vento que tudo lévas,
Não venhas á minha pórta!

E as minhas rosas vermelhas,
As rosas, no meu jardim,
Parecem, assim cahidas,
Restos de um grande festim!

Meu coração desgraçado,
Bebe ainda mais licôr!
- Que importa morrer amando,
Que importa morrer d'amôr!

E vem ouvir bem-amado
Senhor que eu nunca mais vi:
- Morro mas levo commigo
Alguma cousa de ti.




Mensagens de Amor 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

CORPO DE MULHER, POEMA DE PAULO ALVEZ



CORPO DE MULHER, POEMA DE PAULO ALVEZ


Teu corpo de mulher foi meu outrora.
Perdia-me no peso representativo dos teus gestos,
Com dentes ainda me mordes os desejos, que despertos
Se mantêm em harmonias de sensações que a alma devora…
Teu corpo de mulher, orgia entranhada no pensamento,
Como nuvem de poeira distinta, cobrindo a lucidez.
Por ti, ébrio me ajuízo, fruído me revejo outra vez,
Por tufões de calores… afamo em teu sentimento…
Anseio sonhar-te, ver-me na fantasia real, não absorto.
Ser batel navegante em tua única via,
Ver-me estribado à margem do teu porto…
Anseio ver-me, sonhar-te, na real fantasia.
Ser síntese das carícias em teu corpo.
Ser na tua vida, a razão incidente da alegria…




quarta-feira, 13 de abril de 2016

FLOR DO MAR, SONETO DE CRUZ E SOUZA




FLOR DO MAR, SONETO DE CRUZ E SOUZA



És da origem do mar, vens do secreto,
do estranho mar espumaroso e frio
que põe rede de sonhos ao navio,
e o deixa balouçar, na vaga, inquieto.


Possuis do mar o deslumbrante afeto,
as dormências nervosas e o sombrio
e torvo aspecto aterrador, bravio
das ondas no atro e proceloso aspecto.


Num fundo ideal de púrpuras e rosas
surges das águas mucilaginosas
como a lua entre a névoa dos espaços…


Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
auroras, virgens musicas marinhas,
acres aromas de algas e sargaços…

terça-feira, 12 de abril de 2016

ODE À ESCRITA, POEMA DE ROSA ALENTEJANA FELISBELA





ODE À ESCRITA, POEMA DE ROSA ALENTEJANA FELISBELA

Foi uma quente heresia nos dedos
Que acordou o brilho de um poema
Como palavra salivando, blasfema
Na oração sagrada dos segredos

E despertou a tal métrica no regaço
Decassilábico de límpida inspiração
E trouxe ao sol a verdadeira ilusão
Que canta em cada canto o abraço

Contemplando os versos germinando
Como flores no jardim alado, suspenso
Demonstra como esse amor imenso
Te ilumina esses sábios lábios, rimando

E no milagre matutino do sacramento
Silencioso de folhas já fatigadas
Acorda a bonança das espigas doiradas
No trigal das ilusões feitas de alento

Alumia essa clara claridade glamorosa
Emprestada à sua pele magnificente
Nessas mãos de poeta omnipresente
Que enleva em odes a envergonhada rosa.


http://planicie-alentejana.blogspot.com/

domingo, 10 de abril de 2016

SOUVENIR, POEMA DE RACHEL RABELLO




SOUVENIR, POEMA DE RACHEL RABELLO



É tão simples o que espero,
E tão raro o que me falta,
Tão delicado, sutil e singelo
Como o assovio de uma flauta.


A delicadeza é só o que salva.
E a solidão é só o que resta:
É o souvenir de uma valsa
Que dancei nalguma festa.


Mas meu par foi-se embora
E levou consigo a orquestra
Deixou somente esta senhora...


Que espera, quem sabe um dia,
Receber aquele gesto que a faria
Dançar sua alegria como outrora... 


quinta-feira, 7 de abril de 2016

SAUDADE, POEMA DE JOÃO GUIMARÃES ROSA



SAUDADE, POEMA DE JOÃO GUIMARÃES ROSA



Saudade de tudo!...
Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfas e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez ainha hoje espere por mim...


Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...


Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo...


terça-feira, 5 de abril de 2016

EU BEBO A VIDA, A VIDA, A LONGOS TRAGOS*, SONETO DE FLORBELA ESPANCA






EU BEBO A VIDA, A VIDA, A LONGOS TRAGOS


Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu amor eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos…

Os meus sonhos agora são mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…
O mundo, Amor?… 
As nossas bocas juntas!…